22 agosto 2014
Categoria: NeuroNews
22 agosto 2014,
 Off

Por Maramélia Miranda ** 

ICH-CT

O mesmo medicamento oral usado para esclerose múltipla – o fingolimod (Gilenya) – está sendo testado por pesquisadores chineses, com o racional de que os seus efeitos antiinflamatórios podem reduzir o edema peri-hematoma e consequentemente a lesão cerebral secundária a este, presente na hemorragia intracerebral.

Ying Fu e seus colegas publicaram este mês na revista JAMA Neurology, os resultados do uso de fingolimod em um pequeno grupo de pacientes com AVCh supratentorial, com volumes de hematoma variando de 5 a 30ml, testando dois braços de tratamento:

  • ativo, com fingolimod por 3 dias + tratamento conservador convencional;
  • tratamento conservador apenas.

O estudo foi aberto, cego apenas para os avaliadores dos desfechos. A dose usada foi de 0,5mg ao dia por 3 dias, administrada até o máximo de 1h da primeira TC de crânio, até o máximo de 4 dias (72h) após o início dos sintomas do AVCh. 

Os pacientes tratados com a droga tiveram menor incapacidade neurológica. Os números apresentados são relmente intrigantes. Talvez por conta disso a JAMA Neurology aceitou (e publicou!) um estudo com 11 casos tratados com a droga e 12 controles numa doença tão prevalente com AVCh…

Farei a seguir a transcrição exata do que está escrito no Abstract para que vocês possam ler com seus próprios olhos::::

Results.  Patients treated with fingolimod exhibited a reduction of neurologic impairment compared with control individuals, regained a Glasgow Coma Scale score of 15 by day 7 (100% vs 50%, P = .01), and had a National Institutes of Health Stroke Scale score reduction of 7.5 vs 0.5 (P < .001). Neurologic functions improved in these patients in the first week coincident with a reduction of circulating lymphocyte counts. At 3 months, a greater proportion of patients receiving fingolimod achieved full recovery of neurologic functions (modified Barthel Index score range, 95-100; 63% vs 0%; P = .001; modified Rankin Scale score range, 0-1; 63% vs 0%; P = .001), and fewer reported ICH-related lung infections. Perihematomal edema volume and rPHE were significantly smaller in fingolimod-treated patients than in control individuals (Ev at day 7, 47 mL vs 108 mL, P = .04; Ev at day 14, 55 mL vs 124 mL, P = .07; rPHE at day 7, 2.5 vs 6.4, P < .001; rPHE at day 14, 2.6 vs 7.7, P = .003, respectively). We recorded no differences between groups in the occurrence of adverse events.”

Resumindo o texto aí, o que relatam no abstract é o seguinte:

  • Escala de coma de Glasgow de 15 pontos no dia 7 em todos os casos do grupo ativo, versos 50% no controle;
  • Queda da escala do NIH de 7,5 pontos vs 0,5 (P < 0,001);
  • Barthel entre 95-100 pontos em 63% vs 0% (P = 0,001);
  • Rankin de 0-1 em 3% vs 0% (P = 0,001);
  • Edema perihematoma menor no grupo que usou a droga (todos os achados com p significativo).

Impressões

É espantosa a diferença entre o tratamento ativo e o grupo controle relatada, a despeito do número bastante pequeno de pacientes (compararam 11 pacientes que usaram a droga versus 12 controles).

O trial ainda está em andamento, recrutando pacientes, e é fase 2. Pelo site www.clinicaltrials.gov, este trial na verdade está registrado para testar o fingolimod tanto em AVCh – hematomas, quanto em AVCi, do tipo TOAST aterosclerótico de grandes artérias!!!! 

O estudo foi “open-label” (não duplo-cego). As escalas usadas para medidas de desfechos são a escala de comas de Glasgow (achei meio estranho esta escala entrar como medida de desfecho), além do Barthel, NIHSS e Rankin. E outro detalhezinho bem importante: no site de registro, não há financiamento pela indústria – leiam o resumo do trial AQUI (www.clinicaltrials.gov).

LINKS

Fu et al. Fingolimod for the Treatment of Intracerebral HemorrhageA 2-Arm Proof-of-Concept Study. JAMA Neurology 2014.

Sheth & Rosand. Targeting the Immune System in Intracerebral Hemorrhage. JAMA Neurology 2014.