
Complicações Neurológicas após Terapia CAR-T (CD19) em Leucemia Linfoblástica Aguda pré-B e Revisão da Literatura sobre CAR-T
Resumo da aula ministrada por Victor Rebelo Procaci, em 23/04/2026
Objetivos
- Discutir um caso real de complicação neurológica após infusão de células CAR-T anti-CD19 em LLA-B recidivada/refratária, articulando raciocínio sindrômico, topográfico e etiológico.
- Revisar fisiopatologia, critérios diagnósticos, avaliação e manejo de síndrome de liberação de citocinas (CRS) e ICANS (Immune Effector Cell-Associated Neurotoxicity Syndrome).
- Integrar neurologia de emergência, infectologia do imunossuprimido, terapia celular e cuidados intensivos, incluindo EEG contínuo, neuroimagem e punção lombar em plaquetopenia.
- Contextualizar fundamentos de engenharia de CAR-T, gerações tecnológicas, plataformas e expansão para autoimunidade, CAAR-T, CAR-TREG e CAR-NK.
- Destacar complicações tardias específicas (p.ex., síndrome cognitiva e distúrbio do movimento pós-CAR-T-BCMA).
- Introdução: CAR-T entre a cura onco-hematológica e a toxicidade neurológica
A terapia celular com CAR-T transformou doenças antes intratáveis em remissões profundas e duradouras, especialmente em LLA-B, linfomas B agressivos e mieloma múltiplo. Esse salto exige reconhecer e manejar, de forma protocolar, toxicidades sistêmicas e do SNC. Entre elas, destacam-se:
- Síndrome de Liberação de Citocinas (CRS): quadro sistêmico de febre, instabilidade hemodinâmica e hipóxia, relacionado à hipercitoquinemia, com destaque para IL-6.
- ICANS: encefalopatia e manifestações focais (agrafia, afasia, convulsões) na janela típica pós-CAR-T, muitas vezes após CRS, com potencial para edema cerebral e estado de mal epiléptico.
O caso a seguir é utilizado como fio condutor para construir raciocínio clínico, topográfico e terapêutico, evidenciando a importância do ICE score, EEG contínuo, neuroimagem seriada e imunomodulação escalonada.
- Fundamentos da terapia CAR-T: do conceito às plataformas
2.1 Arquitetura e gerações do CAR-T
- Definição: linfócitos T autólogos (ou alogênicos, em desenvolvimento) expressando um receptor quimérico de antígeno.
- Estrutura:
- Domínio extracelular: scFv (anticorpo) que reconhece um antígeno (ex.: CD19; BCMA).
- Região transmembrana.
- Domínio intracelular: CD3ζ (ativação) + coestimulação (CD28, 4‑1BB; combinações).
- Gerações:
- 1ª: CD3ζ isolado (baixa persistência).
- 2ª: CD3ζ + um coestímulo (CD28 ou 4‑1BB) — melhor expansão/persistência, risco variável de inflamação.
- 3ª: coestimulação dupla (CD28 + 4‑1BB).
- 4ª/5ª: “suicide switches”, módulos regulatórios, sensores de microambiente e circuitos de citocinas.
Conceito principal:
- O domínio coestimulatórico impacta a cinética de expansão e o perfil de CRS/ICANS: CD28 historicamente associado a inflamação mais intensa; 4‑1BB, em geral, curso mais brando (dependente do produto).
2.2 Modalidades e pipeline de produção
- Autólogo: leucoaférese → transdução → expansão → linfodepleção (ciclofosfamida, fludarabina) → infusão.
- Heterólogo (off-the-shelf): padronização e acesso rápido; desafios de alogenicidade (edição extra com CRISPR e outros).
2.3 Expansão de indicações e plataformas
- Onco-hematologia: LLA-B, linfomas B agressivos, mieloma (alvo BCMA).
- Autoimunidade:
- CAAR-T: uso potencial em doenças autoimunes, plataforma direcionada para subpopulações de linfócitos B (anti-MOG, anti-NMDA, etc)
- CAR-TREG: plataforma regulatória para tolerância (transplante, neuroinflamação).
- CAR-NK: foco em tumores sólidos e SNC em investigação.
2.4 Linha do tempo histórica (marcos selecionados)
- 1866: As primeiras tentativas científicas de modular o sistema imunológico de pacientes para curar o câncer podem ser atribuídas a dois médicos alemães, Fehleisen e Busch, que observaram independentemente regressão tumoral significativa após infecção por erisipela
- 1891: Os próximos avanços significativos vieram de William Bradley Coley, hoje conhecido como o “Pai da Imunoterapia”. Coley tentou pela primeira vez utilizar o sistema imunológico para tratar câncer ósseo em 1891. Ele observou diretamente diversos casos em que pacientes com câncer entravam em remissão espontânea após desenvolver erisipela. A partir de 1891, Coley passou a injetar diferentes misturas de Streptococcus pyogenes e Serratia marcescens, vivos e inativados, diretamente nos tumores dos pacientes, podendo assim ser considerado o desenvolvedor do primeiro tratamento oncológico baseado em imunoterapia.
- 1975–1982: tecnologia de anticorpos monoclonais se consolida.
- Final dos anos 1980: Eshhar, Gross e Waks estabelecem o conceito de CAR.
- 2010–2017: virada clínica em neoplasias hematológicas; primeira aprovação em LLA-B (2017).
- Caso clínico e cronologia pós-CAR-T: do D1 ao D+10
3.1 Contexto onco-hematológico
- Paciente de 24 anos, LLA-B recidivada/refratária após múltiplas linhas:
- 2017: RE-LLA 2005 (Corticoide, Vincristina, L-asparaginase, Antracíclico, Metotrexato, 6-mercaptopurina)
- 2020: Protocolo R17 (1ª recaída) (Citarabina, Mitoxantrona, Corticoide)
- 2024: Protocolo BFM 2002 (2ª recaída) (Metotrexato, Citarabina, Ciclofosfamida, Vincristina, Corticoide)
- 2024: Terapia ponte pré-CAR-T (Inotuzumabe ozogamicina – anticorpo anti-CD22 conjugado)
- Linfodepleção pré-infusão com ciclofosfamida e fludarabina.
3.2 Linha do tempo clínica
- D1–D5: febre (37,9–mais alta), manejo presumido como CRS com tocilizumabe; meropenem empírico; sem foco infeccioso identificado inicialmente.
- D6: cefaleia de início abrupto (“thunderclap”), agrafia isolada (ICE 9/10), evolução para sonolência/torpor, crise tônico-clônica generalizada, afasia e hemiparesia direita; posterior coma e instabilidade respiratória.
Conceito principal:
- A agrafia é um biomarcador precoce de ICANS; o ICE inclui escrita por esse motivo.
- Raciocínio sindrômico e topográfico
4.1 Síndromes clínicas
- Síndrome febril em imunossuprimido pós-CAR-T.
- Cefaleia thunderclap (red flag para secundária).
- Síndrome de linguagem: agrafia precoce evoluindo para afasia.
- Síndrome motora focal: hemiparesia direita.
- Síndrome epiléptica: crise generalizada; status focal com generalização documentado no EEG.
- Rebaixamento de consciência até coma.
4.2 Topografia funcional
- Agrafia/apraxia de escrita e afasia: comprometimento da rede perissilviana do hemisfério dominante (frontal inferior—área de Broca/Exner, junção parieto-temporo-occipital).
- Déficit motor direito: envolvimento de giro pré-central esquerdo ou vizinhança.
- Encefalopatia difusa (ICANS) somada a foco eloquente dominante explica quadro inicial focal com deterioração global.
Exemplo didático:
- Disgrafia “linguística” (erros de grafema) aponta para rede perissilviana; “não linguística” (planejamento motor gráfico) sugere componente parietal/praxia.
- Diferencial etiológico no pós-CAR-T (D1–D10): VITAMINECDF guiando a prática
- Vascular: HSA, hemorragia, trombose venosa cerebral (TVC), PRES; risco acentuado por plaquetopenia e estado inflamatório.
- Inflamatório: CRS com hipercitoquinemia; quebra de BHE predispondo a ICANS.
- Traumático: menos provável no caso.
- Autoimune: considerar encefalites autoimunes se curso atípico/recorrente.
- Metabólico: hiponatremia, hipoglicemia, disfunção hepatorrenal.
- Infeccioso: meningoencefalites virais/fúngicas em imunossuprimidos (LCR pode ser paucicelular).
- Neoplásico: infiltração meníngea/parênquima (menos provável, mas não excluído).
- Epiléptico: estado de mal focal com generalização e fenômenos peri-ictais.
- Congênito/hereditário; Degenerativo; Funcional: não sugeridos pelo contexto.
Conceito principal:
- ICANS é diagnóstico de exclusão, porém altamente provável quando alterações de linguagem/escrita e encefalopatia surgem na janela típica, sobretudo com CRS concomitante.
- Avaliação diagnóstica: do leito ao laboratório e à imagem
6.1 Monitorização e suporte
- ABC, oxigenação, prevenção de aspiração.
- Hemodinâmica, temperatura, diurese e balanço hídrico.
6.2 Laboratoriais
- Hemograma, coagulograma, eletrólitos, função hepatorrenal, glicemia, lactato, gasometria.
- Marcadores inflamatórios: PCR, ferritina, IL‑6 (se disponível).
Observação:
- Tocilizumabe reduz PCR e pode mascarar inflamação; interpretar com cautela.
6.3 Neuroimagem e EEG
- TC sem contraste imediata (excluir hemorragia).
- Angio/venografia por TC/RM se suspeita de TVC/vasculopatia.
- RM com protocolo encefalite/PRES (FLAIR, DWI/ADC, SWI, perfusão, pós-contraste).
- EEG contínuo: detectar estado de mal não convulsivo, guiar sedação.
6.4 Punção lombar no imunossuprimido plaquetopênico
- Realizar após excluir efeito de massa/hipertensão intracraniana.
- Correção prévia de plaquetas (referência operacional: >50.000).
- LCR: citologia, bioquímica, cultura, PCR painel viral, antígeno criptocócico, citometria de fluxo.
Checklist prático:
- Plaquetas baixas exigem transfusão antes da PL (recomendações variam entre transfundir plaquetas nos pacientes com menos de 20 ou 30-50mil, em casos que necessitam PL); ponderar risco-benefício e, se possível, técnica guiada.
- Achados eletrofisiológicos e de imagem: assinatura peri-ictal
- EEG: estado de mal epiléptico focal frontal esquerdo com generalização.
- TC/angio-TC iniciais: normais.
- RM inicial: normal; RM em D7: restrição verdadeira à difusão (DWI alto/ADC baixo) hemisférica esquerda, não territorial, compatível com lesão peri-ictal pós-estado de mal.
- Evolução: regressão parcial em RM tardia; clinicamente, melhora com controle de crises e suporte.
Diferenciação prática (infarto vs peri-ictal):
- Infarto: segue território arterial, evolução típica para alterações T2/FLAIR subsequentes.
- Peri-ictal: pode cruzar territórios, respeita redes funcionais (linguagem), tendência à reversibilidade com controle ictal.
Conceito principal:
- O acometimento peri-ictal na RM acompanha a rede hiperexcitada, não o mapa vascular.
- Manejo integrado: CRS e ICANS, crises e neurocrítico
8.1 CRS
- Suporte clínico (volume, vasopressores se necessário, oxigênio).
- Tocilizumabe (anti-IL‑6R): pilar no CRS grau ≥1–2 em muitos protocolos.
- Corticoide: adicionar em CRS grave/refratário.
8.2 ICANS
- Tocilizumabe não trata ICANS de forma consistente e pode exacerbar casos de ICANS (penetração no SNC limitada).
- Corticoide: base do tratamento (dexametasona 10 mg IV q6h; metilprednisolona 1–2 mg/kg/dia ou pulsoterapia em casos graves/edema cerebral).
- Antiepilépticos: levetiracetam de escolha inicial; benzodiazepínicos para abortar crises; considerar lacosamida/valproato conforme perfil.
- Controle de edema: cabeceira elevada; manitol/NaCl hipertônico se HIC; UTI e EEG contínuo.
Tendências e adjuvantes:
- Inibidor de IL‑1 (ex.: anakinra) em ICANS moderado/grave ou refratário.
- Plasmaférese: remoção de citocinas em casos graves refratários.
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Tratamento ICANS conforme estágio:
- Grau 1 (ICE 7–9)
1A) Sem CRS concomitante:
– Cuidados de suporte
– Considerar dexametasona IV 10 mg (dose única) e reavaliar
1B) Com CRS concomitante:
– Associar tocilizumabe IV 8 mg/kg (máx. 800 mg)
– Repetir a cada 8h se necessário (máx. 3 doses/24h, máximo total de 4 doses)
- Grau 2 (ICE 3–6)
2A) Sem CRS concomitante:
* Cuidados de suporte
* Dexametasona IV 10 mg
* Repetir a cada 6–12h se ausência de melhora
2B) Com CRS concomitante:
* Terapia anti-IL-6 (tocilizumabe) conforme acima
* Considerar transferência para UTI se CRS ≥ grau 2 associado
- Grau 3 (ICE 0–2, convulsão ou edema focal)
3A) Sem CRS concomitante:
– Internação em UTI
– Corticoide:
* Dexametasona IV 10 mg a cada 6h
OU
* Metilprednisolona IV 1 mg/kg a cada 12h
* Para produtos como Axicabtagene ciloleucel ou Brexucabtagene autoleucel:
* Considerar metilprednisolona IV 1 g/dia por 3–5 dias
* Se refratário:
* Adicionar anakinra 100 mg a cada 6h
* Neuroimagem (TC/RM) a cada 2–3 dias se persistência
* Avaliar hipertensão intracraniana (PIC):
* Se excluída → considerar punção lombar
3B) Com CRS concomitante:
* Associar terapia anti-IL-6 (tocilizumabe)
- Grau 4 (coma, convulsão prolongada ou edema cerebral difuso)
4A) Sem CRS concomitante:
* UTI + considerar ventilação mecânica
* Corticoide em alta dose:
* Metilprednisolona IV 1000 mg/dia (até 2x/dia) por 3 dias
* Desmame:
* 250 mg 12/12h × 2 dias
→ 125 mg 12/12h × 2 dias
→ 60 mg 12/12h × 2 dias
* Se refratário:
* Anakinra 100 mg a cada 6h
* Tratar status epiléptico conforme protocolo institucional
* Neuroimagem seriada a cada 2–3 dias
4B) Com CRS concomitante:
* Associar terapia anti-IL-6 (tocilizumabe)
Conceito principal:
- ICANS requer corticoide; CRS responde a tocilizumabe. O tempo de escalonamento é crítico para evitar sequelas.
- Punção lombar e imunologia do LCR em imunossuprimidos
- LCR pode ser normal ou paucicelular em encefalites oportunistas.
- Índice de IgG sugerindo quebra de barreira hematoencefálica pode ocorrer em crise prolongada, inflamação por citocinas ou efeitos terapêuticos.
- Repetir LCR e ampliar painéis se alta suspeita persiste.
Checklist:
- Painéis alvo: HSV1/2, VZV, CMV, HHV‑6, enterovírus, JC vírus; CrAg; pesquisa para TB, conforme epidemiologia.
- Complicações tardias específicas: síndrome cognitiva e parkinsonismo pós-CAR-T-BCMA
- Descrita em 2024 e em estudos sobre ciltacabtagene autoleucel (cilta-cel) em mieloma.
- Fenótipo: parkinsonismo e déficit cognitivo subagudo (≈90 dias), PET-FDG com hipometabolismo em gânglios da base; histopatologia com infiltração de CAR-T-BCMA.
- Fisiopatologia: mecanismo “on-target/off-tumor” por expressão de BCMA em gânglios da base em subset de indivíduos.
- Conduta: considerar erradicação dirigida das células CAR-T (p.ex., ciclofosfamida) para interromper curso progressivo.
Conceito principal:
- Sintomas extrapiramidais e cognitivos tardios após CAR‑T‑BCMA exigem suspeição precoce e decisão de “matar o CAR‑T” para resgatar função.
- CAR-T em doenças autoimunes: promessas, diferenças e cautelas
- Casuística inicial (lúpus, esclerose sistêmica): respostas muito boas com baixa CRS e ICANS raro nos primeiros relatos; séries subsequentes mostram ICANS possível, porém menos frequente/grave que em onco‑hematologia.
- Racionais: menor carga alvo e microambiente menos pró‑inflamatório.
- Observação: infiltração benéfica de CAR-T em órgãos-alvo (ex.: rim no lúpus), sugerindo vigilância imune local.
- Casos nacionais iniciais em miastenia gravis: ICANS manejável em alguns pacientes (em estudo).
Conceito principal:
- Perfis de toxicidade tendem a ser mais brandos em autoimunes, mas a vigilância para ICANS permanece mandatória e mais estudos são necessários para determinar a taxa de complicação
- Organização do serviço e integração interdisciplinar
- Hematologia/Oncologia: controle de CRS, coordenação de corticoide em ICANS sem comprometer eficácia do CAR-T.
- Neurologia/UTI: ICE seriado, EEG contínuo, condução de sedação/antiepilépticos, manejo de HIC.
- Infectologia: antibiótico empírico precoce; PCR multiplex; reavaliação conforme culturas.
- Radiologia: protocolos de RM (FLAIR/DWI/SWI/perfusão) e venografia.
- Reabilitação: fundamental na recuperação pós-ICANS grave.
- Farmácia clínica e logística: acesso rápido a anti-IL‑6, anti‑IL‑1 e plasmaférese.
Conceito principal:
- Pathways institucionais e “time-based care” salvam neurônios tanto quanto a droga certa.
- Fluxos e ferramentas práticas
13.1 ICE Score (10 pontos)
- Itens: orientação, nomeação, seguir comandos, escrita, atenção.
- Utilidade: triagem e graduação de ICANS; a escrita é sentinela precoce.
13.2 Fluxo pós-deterioração neurológica em CAR-T
- ABC e glicemia; TC crânio ± angio/venografia.
- Levetiracetam + EEG contínuo.
- Se ICANS provável (ICE ≤9 com linguagem/escrita alteradas): iniciar dexametasona; manter investigação infecciosa e antibiótico amplo.
- RM encefálica e LCR quando seguros (plaquetas >50.000; excluir HIC).
- Considerar inibidor de IL‑1 (anakinra) em refratariedade; suporte neurocrítico; ajustar terapia conforme achados.
13.3 Diferenciação operacional: CRS vs ICANS
- CRS: febre, hipotensão, hipóxia; IL‑6 e ferritina elevadas; tratamento com tocilizumabe ± corticoide.
- ICANS: encefalopatia, agrafia/afasia, convulsões, edema cerebral; EEG com lentificação/descargas; tratamento com corticoide + antiepilépticos; considerar anti‑IL‑1.
- Integrações e conexões interdisciplinares
- Neuro-oncologia: neurotoxicidade do blinatumomabe e inibidores de checkpoint; PRES e TVC induzidos por terapias.
- Neurociências: barreira hematoencefálica, micróglia/astrócitos e redes funcionais (linguagem) na assinatura peri‑ictal.
- Farmacologia clínica: interações de antiepilépticos; evitar drogas que baixem limiar convulsivo; “kill-switch” farmacológico do CAR‑T em toxicidades tardias.
- Bioengenharia: CRISPR para universalizar CAR‑T, sensores de TGF‑β e hipóxia, “suicide switches”.
- Saúde pública e bioética: incorporação, consentimento sobre neurotoxicidades tardias, registros longitudinais.
- Pontos de ensino e “dicas de prova”
- A escrita (agrafia) é marcador clínico precoce de ICANS.
- Cefaleia thunderclap em imunossuprimido exige excluir HSA e TVC, mesmo na presença de CRS/ICANS.
- Descrever fenômenos antes de rotular evita vieses e amplia hipóteses.
- Janela temporal: CRS tipicamente em 2–3 dias; ICANS entre D+5–D+10 (varia por produto).
- Em CAR‑T‑BCMA, parkinsonismo e disfunção cognitiva tardios exigem considerar erradicar o CAR‑T.
- Esquemas, tabelas e ferramentas
16.1 Tabela — Diferenciação CRS vs ICANS
- CRS:
- Sinais: febre, hipotensão, hipóxia.
- Marcadores: IL‑6 e ferritina elevadas.
- Tratamento: tocilizumabe ± corticoide; suporte hemodinâmico/respiratório.
- ICANS:
- Sinais: encefalopatia, agrafia/afasia, convulsões, edema cerebral.
- EEG: lentificação, descargas; risco de estado de mal não convulsivo.
- Tratamento: corticoide; antiepilépticos; considerar anti‑IL‑1; manejo neurocrítico.
16.2 Tabela — Infarto territorial vs lesão peri‑ictal
- Território: arterial clássico vs rede funcional (pode cruzar territórios).
- Tempo: DWI+/ADC− precoce em ambos; peri‑ictal pode surgir após estado de mal.
- Evolução: infarto progride para T2/FLAIR; peri‑ictal tende à reversão parcial/total.
- EEG: tipicamente normal no infarto; peri‑ictal com história de crises/estado de mal.
16.3 Diagrama textual — Fluxo pós-deterioração neurológica
- ABC → TC ± angio/venografia → levetiracetam + EEG → se ICANS provável: dexametasona → RM/LCR quando seguro (plaquetas >50.000) → considerar anti‑IL‑1 se refratário → ajuste de terapias por achados → reabilitação precoce.
- Conclusões operativas
- Em LLA‑B recidivada tratada com CAR‑T anti‑CD19, febre nos primeiros dias é compatível com CRS; a partir de D+6, cefaleia abrupta, agrafia/afasia, crise e rebaixamento sugerem fortemente ICANS, sem excluir etiologias vasculares e infecciosas.
- O manejo exige integração rápida de neuroimagem, EEG, antiepilépticos e corticoide para ICANS, mantendo antibiótico até exclusão infecciosa. Em refratariedade, considerar anti‑IL‑1 e plasmaférese.
- Complicações tardias específicas (p.ex., parkinsonismo pós‑CAR‑T‑BCMA) demandam alto grau de suspeição e, por vezes, erradicação do CAR‑T.
- A vigilância com ICE e a avaliação sistemática de escrita/linguagem são críticas, assim como pathways institucionais e equipe multidisciplinar.
Esquema resumido (para revisão e preparação para provas)
- Conceitos principais:
- CAR‑T: scFv + CD3ζ ± coestimulação (CD28/4‑1BB); gerações 1ª a 5ª.
- CRS: febre/choque/hipóxia; IL‑6 elevada; trata com tocilizumabe ± corticoide.
- ICANS: encefalopatia, agrafia/afasia, convulsões; trata com corticoide + antiepilépticos; considerar anti‑IL‑1 em refratariedade.
- ICE score: inclui escrita como rastreio precoce.
- Lesão peri‑ictal: DWI+/ADC− não territorial, seguindo redes; reverte com controle ictal.
- PRES/TVC: sempre considerar em cefaleia thunderclap e déficit focal no imunossuprimido.
- BCMA e parkinsonismo tardio: “on‑target/off‑tumor”; considerar “matar o CAR‑T”.
- Palavras-chave:
- CAR‑T; CD19; BCMA; CRS; ICANS; IL‑6; tocilizumabe; inibidor de IL‑1; dexametasona; EEG contínuo; DWI/ADC; PRES; TVC; plaquetopenia; LCR; barreira hematoencefálica; ciltacabtagene autoleucel.